O beijo  

 

 

 

Assim come�ou o problema que deixou em polvorosa a quase todos os moradores do meu jardim, e conste que o contarei sem omitir nenhum detalhe para que fique claro o que realmente aconteceu, tentando evitar que as m�s l�nguas comecem a espalhar vers�es falsificadas da hist�ria.
Pois bem, tudo iniciou-se quando recebi pelos canais eletr�nicos do aparelho cibern�tico uma mensagem que dizia: " Um dia pode tamb�m come�ar com um beijo. Aqui vai o meu ".
Assim chegou o beijo - carregado de calor e ternura - � janela do meu computador. Foi o princ�pio de tudo. L� ficou ele dan�ando e emitindo o seu convite enquanto eu admirava seus contornos delicados, a sua tessitura, e pensava qual seria o melhor destino para ele: transform�-lo em quadro e pendur�-lo na parede principal da minha sensibilidade?... Fotograf�-lo, e assim levar o seu retrato na carteira que carrego no bolso traseiro da minha ternura?.. Ou us�-lo, e depois apenas lembrar do seu sabor e do seu aroma?...
Enquanto pensava no destino que lhe daria, n�o deixava de espreit�-lo com o rabo dos olhos, e doi a� que notei que ele tamb�m estava a me lan�ar olhares cintilantes desde a tela iluminada.
Dei tratos � bola � procura de uma f�rmula capaz de fazer com que o beijo me sorrisse, e tentando um cafun� de apresenta��o instalei no ar uma m�sica acorde com o evento - um prel�dio de Chopin - desejando que os acordes carregados de serenidade o fizessem abandonar o mundo virtual desde o qual me olhava e se integrasse na realidade circundante.
Poder�o ent�o avaliar o tamanho da minha surpresa quando o beijo, com movimentos sinuosos, el�sticos, pulou para fora da sua pris�o eletr�nica e iniciou uma esp�cie de dan�a insinuante e sugestiva, e num abrir e fechar de olhos correu at� a janela desde a qual, olhando-se atrav�s dos cristais embaciados pelo vapor congelado, divisava-se o exterior completamente coberto pelo frio e pela neve, e num passe de m�gica apareceu do lado de fora, entre os flocos brancos e os p�ssaros negros, esses mesmos p�ssaros que escolheram os bra�os amigos das �rvores do meu jardim para neles passarem o inverno.
Eis que de repente, e sem o meu consentimento, o beijo que me havia sido enviado desde as ant�podas tropicais e que c�lere tinha viajado desde a boca amiga at� a tela iluminada, fugia de mim e pedia asilo no primeiro galho que encontrava no caminho!
Tomado de surpresa ao princ�pio, e agindo sem perda de tempo logo que entendi o que havia acontecido, comecei a espreitar atrav�s da janela, at� que finalmente consegui localiz�-lo no exato momento em que alguns p�ssaros da neve - os que habitavam na �rvore que o beijo escolhera como ninho - ficavam a olh�-lo com curiosidade, e pouco a pouco iam aproximando-se e agrupando-se ao seu redor.
Para dizer a verdade, s� depois de analisar o fato � que imaginei a raz�o: certamente os p�ssaros sentiram o calor que o beijo amigo irradiava e n�o acharam melhor ant�doto para o frio do que aproximar-se o m�ximo poss�vel.
Como � f�cil de imaginar fiquei com muita raiva, pois o beijo era meu e o queria de volta custasse o que custasse, e fiz o que qualquer um teria feito em meu lugar: encapotei-me com os agasalhos que o frio alucinante exigia para a ocasi�o, e l� fui reclamar os meus direitos.`
Doce ingenuidade a minha!... Os p�ssaros, reunidos em Assembl�ia, fizeram que voltasse rapidamente � realidade, pois acabavam de declarar o beijo uma quest�o de vida ou morte, de paz ou guerra, e no decreto por eles votado punia-se com severas penas a todos aqueles que violassem a referida legisla��o.
Mesmo que estivesse quase paralisado pelo frio e pela injusta decis�o da Assembl�ia, ainda tentei argumentar para fazer valer os meus direitos, usando toda a minha capacidade ret�rica, mas foi totalmente em v�o, e al�m de n�o ter conseguido trazer de volta o beijo, ainda por cima ganhei de presente um belo resfriado.
Desde ent�o, e com o passar das horas e dos dias, cumpriu-se o ditado que diz que o ser humano a tudo se acostuma, pois muito a contragosto consegui aceitar o fato de que o beijo que me fora mandado com carinho e com a recomenda��o expressa de mistur�-lo no meu perfume fosse apenas uma imagem, ou pior ainda, uma miragem na minha janela. Pouco a pouco fui tamb�m perdendo os ci�mes dos p�ssaros que usufru�am do seu calor e ternura, e aceitando a nova realidade conformei-me com contemplar atrav�s dos cristais da janela como o beijo aceitava os afagos das aves, suas novas companheiras.
Pouco a pouco fui tamb�m notando - n�o sem uma certa dose de estupefa��o - que a primavera adiantara a sua chegada, pois dia a dia a neve retirava-se mais um pouco e o ch�o deixava entrever o esverdear da grama antes sepultada pelo manto branco.
O interessante e inaudito era que o meu jardim florescia no inverno. As �rvores punham para fora as suas folhas, as suas flores, os seus aromas de ver�o.
Foi a� que os vizinhos - sem d�vida movidos pela inveja - come�aram a queixar-se. Uns lamentavam que seus p�ssaros emigraram para o meu jardim, deixando as suas �rvores �rf�s. Outros queixavam-se que n�o era justo o meu jardim explodir em verde e vida enquanto o deles dormia num letargo paralisante e costumeiro.
O alvoro�o foi tamanho que a �nica alternativa que teve o Prefeito foi reunir o Conselho da Cidade para decidir o que fazer, quais os passos a dar, pois julgavam que o beijo que governava o meu jardim estava provocando uma grave altera��o nos frios h�bitos locais.
A tal da reuni�o - levada a cabo sem demora - durou muitas horas, e finalmente o porta-voz da cidade veio at� a minha casa trazendo a decis�o, e sem mediar uma s� palavra entregou-me uma ma�aroca de papeis, e calado como chegou, partiu.
Eu, curios�ssimo, e por que n�o dizer, um pouco temeroso, fui imediatamente at� o quarto que usava como escrit�rio, sentei-me comodamente na minha poltrona preferida, e comecei a ler a "senten�a".
Confesso que bastou ler o texto da primeira p�gina - que era um resumo da decis�o do Conselho da Cidade - para ficar surpreso pelo conte�do, j� que al�m de trazer uma amea�a impl�cita caso n�o resolvesse a contento e no prazo de 24 horas o problema surgido, consegui descobrir escondida e subentendida nas entrelinhas uma poss�vel via para resolver o caso de forma amig�vel, r�pida e ben�fica para todas as partes envolvidas. Sim. Para que tudo fosse resolvido bastava apenas que eu realizasse um milagre. Um verdadeiro milagre. Nem mais nem menos. A id�ia era t�o mas t�o absurda, que por isso poderia at� dar certo, e sem perder tempo comecei a usar o computador, valendo-me de tanto em tanto dos dados escritos nas folhas que havia recebido das m�os do porta-voz do Conselho da Cidade.
E assim fui escrevendo e escrevendo, ou melhor, digitando e digitando e digitando, horas a fio, possu�do por uma mistura de esperan�a e descren�a, at� que quase no fim do empreendimento fui vencido pelo cansa�o imenso que chegou sem ter sido convidado, e adormeci sentado, usando os papeis como travesseiro e o suave crepitar das chamas na lareira como can��o de ninar.
Para ser honesto, n�o sei dizer quanto tempo fiquei assim, mas o que sim lembro e muito bem lembrado, � que fui acordado pelo preg�o t�o conhecido nestas bandas do norte do mundo, do vendedor ambulante. Sim, pouco a pouco fui assimilando o sentido do grito que entrava pela janela, trazendo no seu eco uma mensagem que, levando-se em considera��o o fato de que est�vamos na metade do mais rigoroso inverno dos �ltimos tempos - com temperaturas que faziam que at� o pr�prio inverno morresse de frio - n�o era muito apropriado. Eis que o vento trazia para junto da minha janela o refr�o repetitivo: "Sorveteeeiro!. Sorveteeeiro!. Sorveteeeiro!.".
Mais do que depressa corri at� a janela, e o que mais me impactou n�o foi a presen�a do senhor gordinho e bronzeado vendendo picol�s, mas o jardim em flor, o lago coalhado de pequenas canoas e barquinhos repletos de crian�as, os passarinhos cantando sem parar, e o principal de tudo, o term�metro marcando 28 graus!!!...
Bati duas ou tr�s vezes no meu rosto para saber se estava acordado ou ainda dormia sobre a mesa do computador, e a resposta dolorida provou que estava mais do que bem acordado.
Nesse momento comecei a refletir, tentando p�r as id�ias em ordem, e ap�s alguns instantes considerei que s� podia ser que o tal do milagre havia acontecido. E eu ent�o, pobre descrente, n�o sabia mais em qu� acreditar, pois at� o dia anterior tinha certeza de que milagres n�o existiam!
O que sim fiz mais do que depressa foi vestir a primeira roupa de ver�o sem cheiro de naftalina que achei no fundo do arm�rio, e logo sa� c�lere a pesquisar os arredores.
Cruzei com os primeiros vizinhos - os quais at� o dia anterior nem sequer me cumprimentavam - e que agora abanavam a m�o num gesto amistoso.
No centro da cidadezinha, cartazes coloridos anunciavam uma parada festiva para as horas vespertinas - com banda de m�sica e tudo - e assim por diante.
At�nito e suado, parei e apoiei o corpo numa das �rvores da pra�a principal, e disse para os meus bot�es: "deu certo! consegui!! sou o maior!! sou um g�nio!.".
Voltei para minha casa quase correndo, apanhei os papeis que recebera do porta-voz - sem esquecer as anota��es que fizera � medida em que fora usando as informa��es - e voltei ao centro para tratar de averiguar o resultado que o meu trabalho noturno tinha produzido n�o na cidade em si, que isso j� o estava vendo, mas nos seres humanos.
Foi nem bem chegar �s ruas mais movimentadas e constatar sem nenhuma d�vida que a receita funcionara. N�o apenas as �rvores e os jardins e as pra�as, mas tamb�m as pessoas floresceram. Em cada rosto - habitualmente s�rio e carrancudo - germinara um sorriso espl�ndido, instalando definitivamente a primavera no car�ter invernal dos habitantes da cidade.
Enquanto caminhava em dire��o � Prefeitura pensava e conclu�a que mais uma vez ficara provada a teoria de que a amizade n�o conhece fronteiras nem respeita barreiras, pois se assim n�o fosse nenhum dos meus amigos virtuais aos quais mandei uma cartinha pelo computador contando o meu problema e pedindo que me ajudassem, o teria feito t�o rapidamente e de forma t�o efetiva.
Pois bem, sei que parece incr�vel, mas essa � a minha hist�ria, tintim por tintim, sem p�r nem tirar. O �nico que posso acrescentar � que hoje cada �rvore, cada pessoa da cidade, usufrui de um beijo como o que um dia foi meu, e isso - como j� o disse e n�o me cansarei de o repetir - s� foi poss�vel gra�as � amizade de tantos e tantas, t�o queridos e queridas, que ao tomarem conhecimento do beco sem sa�da em que tinha entrado, aceitaram colaborar, mandando um beijo igualzinho ao que eu recebera, ao endere�o eletr�nico de cada um dos habitantes da cidade. Um beijo am�vel e sincero, com l�bios transmissores de ternura e amizade, �midos de felicidade e vermelhos de alegria.
Hoje d� gosto ver os beijos reunidos numa das �rvores contando-se uns aos outros hist�rias que os fazem rir at� as l�grimas, mas nas quais nenhum deles realmente acredita.
A preferida, que � a que mais hilaridade provoca - talvez por ser a mais inveross�mil - � aquela que conta o caso de um beijo que um dia escapou do destino que lhe haviam tra�ado e saiu por a� derretendo as neves que tudo cobriam e destruindo o frio que tudo matava.
� um verdadeiro prazer ouvir a tantos beijos rindo a boca solta de hist�ria t�o sem sentido. "I-ma-giii-na", pode-se ouvir em todas as �rvores de quase todas as esquinas: "um beijo derretendo a neeeeve, aniquilando o friiiio! Pooooxa!. quanta imagina��o!... pois o frio e a neve n�o existem, n�o �?... nem nunca existiram, e o que � melhor, jamais existir�o!!"...
E assim, os beijos e os p�ssaros e as �rvores e os jardins e as pra�as e os parques e os vizinhos viveram felizes por muitos e muitos anos, e sem d�vida continuar�o a faz�-lo por muitos e muitos mais, enquanto que a minha hist�ria, que � t�o verdadeira como a exist�ncia dos discos voadores e do homem invis�vel, aqui termina.
S� me resta lhes fazer uma �ltima oferta, que espero a aceitem sem receio: "mando um grande beijo para cada um de voc�s, e os autorizo a fazer um n�mero ilimitado de c�pias!".


� Bruno Kampel, Su�cia

 

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