Carnaval

 

 

 Bruno Kampel





Sabendo que ela viria, escolhi qual seria o evento para melhor recebé-la.
Carnaval, anunciava o calendário. Pois que seja Carnaval, pensei. E com o ritmo da noite que se aproximava já correndo-me nas veias da impaciência, iniciei os preparativos.
Contratei 6 nigerianos , imponentes, para que batessem o tambor, o tamborim e o reco-reco. Tranquei no armário da garagem todos os fantasmas que habitualmente circulam livremente pela sala da minha memória. Despachei a minha espanhola para Andaluzia sem lhe dar mais explicação do que uma vaga promessa de um futuro melhor.
Corri os móveis para aumentar o espaço. Troquei os lençóis, escolhendo uns de cetim negro, comprados em Paris numa dessas noites em que o dolce farniente levou-me até um dos grandes armazéns.
Veuve Clicquot esfriando, caviar Beluga esperando pacientemente a sua hora de ser degustado. E enquanto arrumava os últimos detalhes, o whisky descia suavemente, encontrando terreno propício para alimentar esperanças.
E assim, esperada, ela chegou, inaugurando o desfile da única Escola convidada para o evento que instaurava oficialmente o verdadeiro carnaval nos meus salões mais íntimos, transformados em lupanar digno de príncipes e sultões.
Os batuqueiros, como adivinhando que a hora era essa, começaram o repique, ao som do qual, bamboleando sinuosamente, ela adentrou, fantasiada de convite irrecusável, vestindo a mais ensolarada das epidermes, oferecendo ao único espectador a certeza de uma noite inesquecível.
No alto da carroça, recoberta com o suor que ela mesma fabricara, balançando o seu desejo ao som do batuque, mexia nas minhas cordas mais sensíveis.
E sem saber como, deixei o camarote e pulei para a avenida imaginária, subindo até o púlpito desde o qual ela rezava seu cântico erótico, e juntei-me à coreografia, balançando-me no seu compasso, apoiando-me no seu ritmo, agarrando-me no seu suor.
E assim continuava o desfile, apoteótico, transmitido em cadeia para todos os meus poros, para cada um dos meus sentidos.
Por isso, custou-me escutar o silêncio que tomara conta do espaço, até que olhando para o lugar onde os imponentes nigerianos deviam estar cumprindo a missão para a qual haviam sido contratados, vi que eles tinham abandonado os tambores, tamborins e reco-recos, e, hipnotizados, tinham os olhos postos nela, tocando-a de longe, acariciando-a lascivamente com os olhos, roubando-me a primazia e o privilégio.
Sem pensar duas vezes expulsei a orquestra, e assim, ficamos os dois, molhados de expectativa, pendentes do que sabíamos seria o passo decisivo.
Ajudei-a a descer, e cantarolando um samba nos agarramos, e o beijo pareceu uma ordem peremptória que nos empurrou pela passarela iluminada até o altar de cetim que desde cedo nos esperava.
Masoquistas, adiamos o encontro, molhando o desejo no champanhe, enchendo nossas bocas com caviar, conhecendo-nos, averiguando-nos.
A pesquisa, que começou prudente, adquiriu proporções de terremoto, pondo a prova a nossa capacidade de conjugar esforços para encontrar um resultado equivalente.
Sim, foi delirante. O beijo no lugar esperado, a carícia na hora certa, a música de fundo composta de ais profundos, palavras sem nexo, e o sexo, explícito e profundo, imperando soberano.
Fomos, ora trotando, ora galopando, ora descansando, e outra vez o trote e o galope e o descanso, e outra vez, e tantas, que parecia estarmos num paraíso feito de caviar e suor, de seda e champanhe.
Quando o amanhecer bateu na janela do quarto, ela, já despida dos trajes nupciais com que a luxúria a vestira, concedeu-me a última valsa, e dançando a lembrança da noite que passara, esfumamo-nos no despertar da realidade.

 

 

 


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