Noite de gala  
 

 
Antiquíssimos fracassos vestidos de smoking. Velhas reminiscências estreiando ousados decotes. Pesadelos em preto-e-branco decorando as paredes da noite. Olheiras amestradas recebendo na porta da solidão a seus convidados,  e num canto do silêncio um par de pacientes perguntas esperando sentadas pela chegada de alguma resposta interessante.
No vaso de flores, uma desnutrida orquestra de geranios aposentados desafina seus enferrujados instrumentos, enquanto os dançarinos arrastam melodicamente suas artríticas derrotas.
Jovens e elegantes mentiras escolhem par entre vetustos e decrépitos enganos. Robustas desventuras dançam abraçadas a atléticos desencontros, e lágrimas de segunda mão cruzam suas depiladas pernas buscando conquistar a un par de olhos que as acolha. Desde um dos cantos do teto, um casal de atónitas moscas não perde nenhum detalhe do evento.
Essa a "mise-en-scène" de uma noite de insónia, a qual, pedagógica como sempre, redige entre aspas a sua parcialíssima versão dos fatos:

 
Olheiras perplexas
deliram perguntas
que roem as unhas
das horas que passam
e estas insones
qual arame farpado
bordam respostas de pedra
que convidam ao quebranto
que doem sem clemência
que ferem sem vergonha
e morrem sem vontade
enquanto a madrugada
esvai-se gota a gota
e o perfil da aurora
entre um bocejo e outro
pendura-se nos olhos
da noite que agoniza
ao passo que a alvorada
cumprindo seu destino
floresce pontualmente
e inventa um novo dia. "


 

                                       © Bruno Kampel, Sweden, 1999

                                                    

 

Manda esta p�gina a um amigo
  e-mail do amigo:


 



O presente

O beijo

Carnaval

Aus�ncia

A consulta

A confiss�o

O conflito

Quatro estrelas

O di�logo    

O grito   

      

Hotel

Ironias da vida

A la carte

Mayday!

Mel