O conflito

  

 Bruno Kampel





Só nos últimos dois meses é que fora tomando conhecimento e assimilando a situação sui generis em que se encontrava.
A verdade é que nos meses anteriores estivera tão ocupada com assuntos tremendamente vitais para ela, que não lhe sobrara tempo para constatar que se encontrava num verdadeiro beco sem saída.
O sinal de alarme soou quando finalmente entendeu que, para a sua mãe, ela não passava de um simples objeto, de um bibelô sem vontade própria, de uma coisa.
Não era suficiente que a obrigasse a comer o que ela mandava. Também tinha que ouvir as músicas que ela gostava, ir dormir na hora que ela ordenava. Enfim, um verdadeiro estado de escravidão. E tudo porque ainda não era independente. Era uma sensação de impotência que tomava conta de si, pois não sabia como acabar com esse regime de "liberdade vigiada" em que a mãe a mantinha.
E essa mania que tinha de planejar o seu futuro, como se ela nada tivesse a dizer a respeito! Era só alguém aparecer e pronto: "que depois do científico fará Engenharia, e mestrado nos States, e isto e mais outro e mais aquilo e mais o outro", e assim até que a pessoa ia embora.
Foi assim vivendo, com a sua liberdade tolhida, sofrendo caladamente, procurando uma solução que a liberasse, pois sabia que não agüentaria seguir assim.
Uma manhã - quando já estava quase resignada com a sua sorte - ouviu a mãe aos gritos pedindo que chamem uma ambulância pois estava passando muito mal. Pouco depois, lá se foram todos para o hospital.
No caminho, enquanto a ambulância sacolejava como sacolejam todas as ambulâncias, tomou uma decisão que - pensava - lhe abriria o caminho para ser dona de si mesma, para poder decidir o que fazer, quando fazer, como fazer. Afinal, só se vive uma vez, pensou.
Sim, a partir de hoje, deixaria que a mãe pensasse que manda, que decide, que escolhe, que planeja, mas, no fim, com jeito, faria o que ela mesmo decidisse, escolhesse, planejasse.
Quando a mãe viesse com aquilo de "Lurdinha, faz isto! Lurdinha, veste aquilo! Lurdinha, volta às 8! Lurdinha, faz Engenharia!", ela responderia a tudo "sim mamãe", mas faria o que bem entendesse.
Assim, enquanto a idéia salvadora ia tomando corpo e forma, a ambulância chegou ao Hospital, onde a Dulce foi imediatamente atendida pelo médico de plantão, que ordenou a sua imediata internação.
E lá foi a Dulce numa maca, até perder-se atrás de uma porta. Da mesma porta pela qual, minutos depois, aparecia o rosto sorridente de uma enfermeira, anunciando que o parto fora normal e que a Lurdinha nascera sem quaisquer contratempos.

 

 

 


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