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A
consulta
Bruno Kampel
Moisés
acordou não muito bem disposto. Aliás, como era praxe nos últimos
meses, o despertador, além de o trazer de volta à realidade,
desencadeava também um aluvião de urgências que precisavam ser
atendidas, uma por uma.
A primeira delas - imprescindível para poder continuar com o dia que se
iniciava - era a de pular da cama logo que a campainha do relógio
soasse, ir correndo até o armário e abrir-lhe as portas de supetão,
tentando com tal gesto surpreender aos fantasmas que lá passavam as
noites, fato do qual estava absolutamente convencido, ainda que não
dispusesse de suficientes provas materiais para poder agir em conseqüência.
Sim. Moisés estava completamente persuadido que entre as dobras das
sombras que as horas noturnas e soturnas fabricam na penumbra modorrenta
da madrugada, e aproveitando-se da sua necessidade fisiológica de
dormir algumas horas, os fantasmas invasores acomodavam-se em
todas as estantes do seu guarda-roupa e lá ficavam até o soar do
despertador, dedicados única e exclusivamente a conspirar contra ele,
planejando a sua morte.
A bem da verdade, pode-se afirmar sem medo de errar que tinha
treinado até a exaustão a melhor maneira de pular da cama logo que o
primeiro "trim" do despertador rompesse o silêncio do seu
quarto, e sem perder tempo correr até o armário e escancarar de par em
par todas as portas do mesmo à procura do tal do flagrante delito, mas
para a sua desgraça os fantasmas, que de bobos não
tinham nada, até a presente data haviam conseguido burlar a armadilha
que lhes preparava cada manhã, pois tinham demonstrado ser muito mais rápidos
do que ele, levando-se em consideração o fato de que não conseguira
pegá-los com as mãos na massa. A bem da verdade, nem sequer alcançara
a vê-los.
A segunda urgência matinal - tão inadiável como a primeira - era a de
ir até banheiro e ficar de costas para o espelho até que
este, pensando que ele não estivesse interessado em se olhar, baixasse
a sua guarda. Então, girando como um acrobata, Moisés ficava de frente
para o reflexo de si mesmo, vitorioso, pois mais uma vez conseguia
ludibriar ao espelho, introduzindo sua imagem dentro dele.
E assim o fez desta vez, e enquanto cumpria a rotina diária de
barbear-se não deixava nem por um segundo de espiar pelo rabo do
olho o que acontecia no cesto da roupa suja, pois dispunha de informações
fidedignas sobre uma possível armadilha mortal que os fantasmas teriam
armado dentro do cesto e da qual ele era o único destinatário.
Felizmente - se bem que por um simples acaso do destino - descobrira que
se abrisse o cesto às 7 horas 17 minutos e 35 segundos nada ruim lhe
aconteceria. E ele atuava em conformidade com essa premissa, pois caso
contrário - assim pensava - certamente há muito teria perdido essa
guerra sem quartel que lhe haviam declarado os malditos e escorregadios
fantasminhas.
Uma vez concluído o banho de chuveiro, já barbeado como manda o
figurino e corretamente trajado como exige a moda imperante, ficava
ainda pendente de solução a terceira urgência matinal: o desjejum. E
a cozinha era o destino natural para o qual dirigir os seus passos.
Em lá chegando, e enquanto o pão não torrava e o leite não fervia,
encostou uma cadeira na porta do forno - como de hábito o fazia - pois
tinha certeza absoluta que lá também estavam eles, esperando qualquer
descuido de sua parte para executar a parte final do seu plano
assassino.
Depois de ter quebrado o jejum
retornou ao banheiro, e cumprindo a quarta urgência, que também servia
como despedida antes de sair, enfiou a cabeça na máquina de lavar e
gritou as consignas do dia:
" A rainha do Paraguai é a prima do urinol do general! O edifício
recusa submeter-se à educação sexual! Tirem as mãos de baixo do
Canal da Mancha!.".
Depois dessas três, e gritando quase até perder a voz, deu as últimas
instruções, pois não gostava de sair deixando as coisas sem um rumo
certo, sem uma diretriz clara:
" Os genitais do carro exigem novos amortecedores! Estrangulem a
todos os sacrifícios inúteis! Basta de sepulturas dietéticas e
sobremesas mortais! Que a democracia tire a roupa e mostre o
rabo!.".
Retirou a cabeça e foi até o quarto de serviço, onde apanhou o guarda-chuva
que placidamente dormia aberto na cama da empregada que não tinha,
bateu continência, e num passo marcial dirigiu-se até a porta, pela
qual saiu a caminho do novo dia que lá fora, na intempérie, há muitas
horas o esperava.
Mesmo morando no vigésimo andar usava para circular apenas e nada mais
do que a escada, pois sabia do conluio existente entre o elevador e os
seus algozes, já que havia recebido informações privilegiadas de
fonte absolutamente anônima que não deixavam dúvidas ao respeito.
Em cada andar que passava interrompia a descida por alguns segundos e
abria as portinholas das bocas do lixo, pois essa era na sua opinião
a melhor estratégia para averiguar se estava sendo seguido, já que
segundo seus cálculos hipotéticos essa seria a via
pela qual os fantasmas circulavam impunemente por todas as veias e artérias
do edifício.
Depois de descer os 433 degraus que separavam o seu apartamento da
realidade matutina, finalmente chegou à garagem do terceiro subsolo do
prédio, lugar onde pernoitava o seu carro, e antes de entrar no mesmo
cumpriu todas as instruções que havia estudado nos livros
especializados e que serviam para descobrir se algum dos fantasmas havia
aproveitado a noite para infiltrar-se no veículo.
Primeiramente, como indicava o manual que pensava escrever algum dia, mexia as cadeiras
num ligeiro rebolado ao mesmo tempo em que dava três voltas sobre si
mesmo, pondo a mão esquerda sobre a cabeça e a direita no traseiro,
justo sobre a nádega oposta. Depois, e finalizando o mini ritual de que
se compunha a investigação, pronunciava 3 vezes a palavra mágica
"mashishumiklin", a qual, segundo pudera comprovar lendo
diversos testemunhos inexistentes e não poucos artigos jornalísticos sobre outros
temas,
tem fulminantes efeitos anti-fantasmagóricos.
Isto feito, e muito mais tranqüilo quanto à sua segurança pessoal,
entrou no carro, deu a partida ao motor - o qual milagrosamente
respondeu positivamente na primeira tentativa - e iniciou a viagem através
da manhã que já estava quase pela metade, e bastante cansada de esperá-lo.
A distância a percorrer não era grande coisa, e durante a viagem
divertia-se olhando pelo espelho retrovisor a agilidade elástica e atlética
com que os fantasmas corriam sem cessar atrás do carro numa evidente
tentativa de não perdê-lo de vista. E ele, então, cada vez que os
via aproximar-se do carro acelerava e acelerava e acelerava, e assim
novamente os perdia de vista, o que lhe infundia uma enorme confiança
em si mesmo, pois nesses momentos se sabia superior a eles.
Hoje - pensou enquanto esperava que o sinal ficasse vermelho para avançá-lo
- era um dos dias que menos gostava, pois era o dia da semana em que
devia ir à consulta na Clínica Psiquiátrica.
A verdade é que não achava nenhuma graça nem acreditava em qualquer
um dos tratamentos que tinha experimentado ao longo da sua vida.
Francamente, detestava as perguntas idiotas que ouvia, as respostas sem
sentido que dava, os remédios, e principalmente odiava a idéia de que
tudo o que acontecia no mundo devesse ter uma explicação racional,
como pretendiam alguns.
Se existia alguma coisa sobre a qual pudesse assegurar que estava
absolutamente seguro era a sua profunda e dogmática convicção de que
a loucura não existia.
E assim, enfim, de sinal em sinal, de idéia em idéia, o trajeto foi
completado e chegou ao destino planejado.
Antes de sair do carro - e usando uma precaução que nunca o abandonava
- ligou um aparelho invisível cuja única função era alertá-lo no
caso de que algum espião sobrenatural entrasse no seu veículo.
Satisfeito com a sua perspicácia - da qual dava fé ante o tabelião da
vida - colocou todas as trancas imagináveis e imaginadas, saiu, passou
a chave, olhou-se no vidro ajustando a gravata que esquecera em
casa, e assobiando uma letra sem música - aquela sem palavras, que era
da que mais gostava - abriu a porta da Clínica e entrou, disposto a
aceitar a consulta como parte do pedágio que a vida cobra daqueles que
querem viver sem preconceitos.
Pois bem. Foi só o pobre do Moisés pôr os pés no chão da clínica e
todo o bom humor que fora acumulando desde que acordara esfumou-se num
abrir e fechar de olhos, pois constatou que mesmo havendo chegado quase
uma hora antes do horário de início das consultas, mais uma vez encontrava a sala
de espera repleta de pacientes.
Sim. Esse era um dos traumas do Moisés: jamais conseguia ser o
primeiro a chegar, ou no mínimo um dos primeiros a chegar.
O pequeno cubículo estava - como se diz vulgarmente - com gente saindo
pelo ladrão, sem lugar para nem sequer mais uma agulha. O palheiro -
pensou enquanto sucumbia perante a realidade que se lhe deparava -
estava lotadíssimo.
Ante tal situação, e como sempre lhe ocorria quando algo imprevisto se
interpunha entre ele e os seus desejos, perdeu literalmente o rumo,
ficando a olhar com olhos que não viam, sem saber o que fazer nem como
agir ou o que dizer, pois estava total e completamente desorientado.
Quando já começava a perder o equilíbrio, que era um dos sintomas físicos
que bem conhecia e tanto temia, eis que ouviu a voz tranqüilizante e
salvadora da enfermeira-recepcionista, que aproximando-se dele, e com um
sorriso profissional pendurado nos lábios o recebeu alegremente, e ao
mesmo tempo em que o puxava leve e delicadamente por um braço
sussurrava-lhe melodiosamente ao pé do ouvido:
" Bom dia doutor Moisés! Logo que estiver pronto por favor me
avise que mando entrar o seu primeiro paciente".
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