|
Hotel
Bruno Kampel
Minha chegada a São Paulo imitou a praxe de minha chegada em todos os lugares: ninguém esperando, e, além da meia hora destinada à reunião que motivara e justificara a viagem, nada mais a fazer.
Escolhi o Maksoud por comodidade, já que estava a um grito de distância do encontro de negócios. Se assim não fosse, teria preferido seguir a tradição de dormir no Mufarrej, onde o território me era familiar.
Até as senhoras bem tratadas que o freqüentavam já me sabiam, de frente e de perfil, tornando mais fácil a noite, fazendo de conta que retomava algo que há pouco havia interrompido.
Sacudindo levemente a cabeça, fechei a porta do quarto e peguei o elevador. Busquei com o olfato o lugar do piano bar, pois precisava beber o ar do ambiente e cartografar o território. Descobrir as ofertas que a noite punha sobre o tapete.
Ja acomodado numa mesinha estrategicamente situada, à habitual pergunta do garçom respondi que primeiro um whisky, e depois, que me fale das mulheres. Da Mulher. Da melhor. Daquela que é a jóia da coroa, rainha da casa, pois não queria menos.
Enquanto o whisky acomodava-se entre as pedras de gelo, contou-me que o nome dela era Alicia, e que não se responsabilizava pelas seqüelas que uma noite com ela poderia deixar.
O resto, você já conhece. Chamou-te, você veio. Bebemos ouvindo a música de turno. Medimo-nos. E quase sem palavras nos levantamos, e quase sem olhar-nos montamos no elevador que nos deixou nas portas da minha cama. E a ópera foi longa. Subimos e descemos, gritamos e calamos, fomos urgentes e sem pressa, rio e barco, querer e poder.
A primeira mordida, a música que não parava de alimentar as nossas urgências, o teu suor com gosto a massagem, o teu calor animal, a tua boca bebendo-me, a minha calando-te.
Pacientemente visitei todas as tuas urgências, invadi todas as saídas, tenso como nunca, amplo como a tessitura da tua pele. E você tocou-me todos os sentidos, abraçou-me todas as saliências, bebeu-me todas as essências.
E da cama fomos ao chão, e de lá à banheira, e como dois adolescentes navegamos nas águas turbulentas, e molhados saltitamos nus pelos corredores, e nos tivemos na escada de incêndio, e outra vez e mais outra. E outra vez na cama, você dando as ordens e eu realizando os meus desejos. Você mandando e eu desobedecendo, aceitando apenas o teu pedido de quero mais e mais e mais. E mais te dei. Mais tudo. Deitado em você deitada em mim voamos numa explosão cujo eco ainda habita todos os espaços da minha memória.
Amanhecemos um no outro, um sobre o outro, um embaixo do outro. Desenrolamos o nó, e enquanto você tomava banho depositei na tua bolsa o preço combinado.
E quando fiquei sozinho, foi então que entendi o aviso do garçom.
Enfim, creio que aprendi a lição. Nunca mais cairei no erro de beijar na boca sem-vergonhas como você; de abrir a guarda com vagabundas como só você!
Aqui termino. Esta carta, mais que um desabafo, é um até nunca. Adeus para sempre.
P.S.: Anexo segue a passagem e o cheque. Te apanho no aeroporto.
|