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Ironias
da vida
Bruno Kampel
Bati a
porta, fechei as chaves, peguei o elevador e saí para a manhã cheia de sol com
que o Rio geralmente nos acorda. Uma vez na rua apressei o passo como já
querendo chegar ao destino. Caminhando num só fôlego devorei os quarteirões que
me separavam de.... mmm... de... da... do... ué, onde mesmo estava
indo?... Parei, e gelei. Bati com a mão na testa num gesto de assombro. Um
suor frio mostrou suas mãos acariciando-me o rosto. Não entendia, pois tinha
certeza de tê-lo trazido comigo. E a certeza era tanta que mesmo no meio da rua
comecei a procurar. Primeiro na consciência. Depois, ante o infrutífero
resultado, comecei a revirar as gavetas da memória, mas creia-se ou não, foi-me
impossível achá-lo. Sim, difícil de acreditar, mas pela primeira vez na vida
tinha perdido o meu Rumo. Sem saber ao certo se voltar ou seguir, apostei na
aventura. Aluguei um camelo na esquina da Garcia D'Avila e parti sem rumo nem
bússola, apenas seguindo a lembrança dos trilhos que uma vez levaram bondes no
seu lombo, e descendo a Visconde de Pirajá cheguei no deserto de Copacabana. Ao contemplar a aridez da paisagem pensei em
desistir, mas ao ver como a Sociedade - que placidamente descansava à beira de
um oásis - assaltava com premeditação e aleivosia a uns pivetes que por ali
passavam, fiquei contemplando a técnica perfeita com que despojavam os garotos
da dignidade humana; como lhes extirpavam sem anestesia as esperanças de um
futuro melhor. Sim, ao ver a cena decidi continuar, não sem antes aplaudir,
ainda que uma das partes não pudesse e a outra não quisesse entender a razão da
minha manifestação alegórica. Segui o caminho que o camelo escolheu e vi-me
amarrando o dito cujo na porta de uma igreja na Barão de Ipanema - na qual
entrei sem duvidar um instante. Mesmo cedo como era não estava vazia, mas
pelo contrário, lotava o ambiente um ar de
hipocrisia adequado a todos os templos de todos os credos, e não por culpa dos
crentes, mas de quem administra os negócios divinos. Adentrei-me abrindo
portas e mais portas até chegar ao confessionário, o mini-paraiso desde o qual
se recebe sempre a absolvição, não
importando qual seja a crueldade do pecado
cometido, pois ninguém é de ferro, e se não
assim a freguesia não volta. Curiosidade saciada, saí - mais pecador do
que entrei - e lá fui em busca do camelo que, de
forma tão previsível como o límpido céu dessa bela manhã carioca, havia
sido devidamente confiscado pelo DETRAN sob a alegação de estacionamento em
local proibido, com o agravante de que o dono não se encontrava para efetuar o
pagamento do suborno estabelecido na Lei da Selva. O acaso solucionou o
problema da minha falta de condução. Sem pensar duas vezes montei num deputado
estadual que por ali passava, e ainda que ante a comparação sentisse saudade da
inteligência e cultura do camelo, não tive alternativa senão galopar esse bípede
quadrúpede. Isso sim, parei na primeira papelaria
e comprei um rolo tamanho gigante de fita
durex para selar os lábios do ilustre deuputado, que só me faltava
que sua excelência quisesse abrir a
boca! Foi a pior parte da viagem, pois eu queria transitar pelas avenidas do
deserto, buscando os resquícios da antiga civilização ali imperante, enquanto
que o referido dromedário, talvez por vício profissional, buscava os atalhos
perigosos que sempre conduziam aos becos sem saída. Tanto fez, tantas vezes
entrou na contramão, que cansei. Bastou apenas um telefonema ao canalha de turno
para que o assunto fosse resolvido: o deputado foi nomeado Ministro do Tribunal
de Contas e imediatamente aposentado com todas as regalias, e assim livrei-me
dele. Se alguém pensa que fiquei muito tempo a pé, erra. Uma enorme carreta
aproximava-se velozmente, o que me obrigou a arriscar o pulo para abordá-la - o
que consegui na primeira tentativa. A carroça, que era enorme - para que tenham uma idéia, muito maior que a
decência - tinha nome e sobrenome. Chamava-se Falta de Vergonha, e disse-me ser
filha legítima do sistema imperante e da herança política. E lá fui eu,
deitado nos braços da semvergonhada semvergonhice, a caminho da sua residência
oficial. Pois bem, cruzamos Minas Gerais e logo que chegamos aos limites com
Brasília trocou para a bandeira dois, pois contou-me que ali o suborno é 20%
mais caro. Apeei-me às portas do Congresso, onde - veja-se as voltas que a
vida dá - estava o Camelo. Tive a certeza de que era o mesmíssimo, pois
reconheci-lhe o perfil de estadista. Mas o muito safado esnobou-me, e logo logo entendi o por quê: havia sido nomeado
Ministro da Ciência e da Tecnologia. Decidi então caminhar ao léu, e fui, de
Esplanada em Esplanada, vendo figuras ilustres velejando nesse mar de lama. Aqui
a Dona Bandalha sem Limites; acolá o tão conhecido e popular Assalto aos Cofres
Públicos; só virar o rosto e dar de cara com a Fraude Eleitoral, togada e cada vez mais gorda; e um
exército de empreiteiros carregando o baú da felicidade cheio de cheques e
propostas indecentes. Vi também um batalhão de pequenas formigas, umas
chefiando as compras nos hospitais; outras encarregadas das ajudas aos
flagelados; algumas administrando a assistência aos pobres. Sim, ao vê-las
não pude deixar de pensar: eis aqui os futuros proprietários das coberturas da
Vieira Souto, das Mansões do Lago e dos palacetes dos Jardins. Êta povo
trabalhador!!... Com dor nas pernas da minha alma, olhei o meu relógio e
constatei que pelo menos para mim já era tarde demais, e vendo como anoitecia
sobre todos nós - ladrões e roubados, culpados e vítimas - tomei a decisão de
voltar. Se o tempo que vivemos é irreversível - pensei - não assim o é a minha
presença. Dito e feito. Ao ver passar uma Grande Mentira construida
especialmente para uso presidencial, pedi-lhe que abrisse as asas e me
devolvesse ao ponto de partida. E ela, que tinha o apelido carinhoso de Educação
e Saúde para Todos, vendo que não havia ninguém por perto, montou-me nas suas
costas e num abrir e fechar de olhos depositou-me na porta da minha casa, no
início da manhã, quando, quase fechando as chaves, finalmente lembrei-me de ter
esquecido o meu Rumo no armário das boas intenções. Dominado por un desânimo
insuportável decidi-me quase sem pensar. Bati a porta, fechei as chaves, peguei
o elevador, e saí para a manhã cheia de sol com que o Rio geralmente nos
acorda. A galope de mim mesmo cavalguei até uma agência de viagens onde
comprei a passagem que me trouxe até o lugar onde durante os últimos anos tenho
chorado e penado de saudades do Brasil.
[Nota: Depois de escrito,
reparei que devo três explicações: 1.- A burrice do deputado é a regra e não
a exceção que a confirma. 2.- A sabedoria do camelo é a exceção que a
confirma, e não a regra. 3.- Todo este texto não passa de simples realidade,
e qualquer tentativa de transformá-lo em ficção deverá ser entendida como uma
vontade de jogar o velho jogo do avestruz, enterrando a cabeça num buraco
para não ver a realidade]
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