O julgamento

  

 Bruno Kampel





Hoje de manhã, antes de acordar, recebi um estranho telefonema. Uma voz desconhecida convidava-me a assistir a um julgamento.
- Hoje?... Dia primeiro de janeiro?… perguntei incrédulo. E respondeu-me que sim, que era urgente e inadiável.
Como nada havia planejado para este dia tão feriado, respondi-lhe que sim, que aceitava o convite, ao que a voz me respondeu que passaria a me apanhar em menos de uma hora.
Vesti as roupas de inverno mais grossas que tinha, pois o tempo não ajudava. A neve e o vento, e o frio intraduzível - meus inimigos incondicionais - espreitavam desde o outro lado da janela, esperando a oportunidade de me atingirem sem piedade.
Pois na hora indicada chegou um trenó - que as condições da estrada não permitiam o uso de qualquer outro transporte - e montando nele, depois das apresentações de praxe, lá fui eu participar do magno evento.
A neblina era tanta que dava a impressão de que a viagem transcorria entre nuvens, mas seja como fora, chegamos ao local onde em pouco tempo começaria o espetáculo.
Em lá entrando e, antes mesmo de sentar-me, reconheci a cara do juiz, pois a sua longa barba era inconfundível. Fiquei impressionado, pois pensava que São Pedro era muito mais velho do que pessoalmente aparentava.
Como é de imaginar, passei a ficar interessado, pois não é todo dia que tenho a oportunidade de ser testemunha de um episódio de tamanha magnitude.
Batendo severamente com o seu martelo sobre a mesa, dava início aos trabalhos anunciando que faria questão de que o veredicto fosse justo, como vinha - segundo suas palavras - ocorrendo no último par de milênios.
A seguir, chamou ao acusado, quem caminhando com dificuldade, apresentou-se ante o referido magistrado.
Foi exatamente nesse instante que entendi a grandeza do momento, pois tratava-se nem mais nem menos do que o julgamento do Sr. Ano Passado, que deveria defender-se das acusações que os dias por ele mesmo criados lhe faziam.
Não entrarei nos detalhes, pois seria por demais redundante. Apenas direi que as testemunhas de acusação foram muitas, e seus argumentos, contundentes. Passaram pelo estrado Indonésia, Ruanda, Iraque, Burundi, Iugoslavia, Bosnia, Serbia, Kosovo, as massacres da Argélia, os bombardeios da OTAN, a miséria africana, a enorme desgraça dos pobres, a exploração sem vergonha dos povos da América Latina, Asia, África, e os atentados indiscriminados, e a insensatez dos governantes, e a fome, e o ódio, e a elegante indiferença.
Cada uma dessas testemunhas declarou sob juramento haver praticado - ou deixado praticar - os atos mais terríveis, com a complacência do acusado, que não moveu nem um minuto do seu tempo para tentar impedir os atropelos.
Nesse ponto - confesso - considerei o caso praticamente encerrado, e olhando para a cara do Ano Passado, não entendi o seu sorriso confiante.
Passado o intervalo de praxe, sentou-se a declarar o próprio acusado, a quem São Pedro leu a lista dos delitos que se lhe atribuíam.
Pois bem, logo depois de ouvir as acusações, e perguntado se as aceitava como fatos, confessando a autoria, indignado levantou-se e disse: - Puro blablablá! Provarei a minha inocência e cabeças coroadas rolarão! -
Começou pedindo ao meritíssimo juiz que o autorizara a apresentar à sua única testemunha, a qual, segundo suas palavras, considerava fundamental e decisiva para a sua defesa.
- Pois quem é?... perguntou-lhe São Pedro sem esconder a curiosidade e a impaciência.
- Seu chefe - respondeu-lhe o Ano Passado - olhando firmemente nos olhos do Juiz. Este, surpreso ao princípio, e indignado depois, vociferou: - Como se atreve? Como se atreve?…
Não seguirei contando os detalhes, mas apenas direi que o réu, usando e abusando dos recursos legais que a legislação lhe permitia, provou que não se pode negar ao acusado o direito de apresentar as testemunhas que entender convenientes.
Ante tal situação criada pela argumentação do Ano Passado, retirou-se São Pedro, já que - conforme informou às partes - devia "deliberar com as instâncias superiores".
Passado um tempo que não sei definir em horas ou minutos, voltou o Santíssimo Magistrado, que sem vacilar - ainda que deixando transparecer um ar de impotência secular no olhar - leu a mensagem que a seguir resumo:
"Tendo em vista a natureza dos fatos, e a manifesta boa vontade detectada nos atos do indiciado, esta sala retira as acusações contra o Ano Passado, e, como prova de reconhecimento pelos serviços prestados à humanidade, o manda de volta para assessorar ao Ano Novo, ajuda que este Tribunal desde já agradece penhoradamente".
Eu, ouvindo tal discurso, e entendendo-lhe as razões, não esperei o trenó, e montado numa desilusão que não me era estranha, retornei à cama, fazendo de conta que nada disso havia acontecido.

 

 

 

 

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