Despertar em Dó menor


                                                   
 

"O dia amanheceu soturno, mas com o passar das horas a inutilidade de quase tudo ficou eclipsada pela chegada da Esperança, que de prontidão máxima aguardava os acontecimentos espreitando pelo olho da fechadura do tempo.

Por trás das cortinas de fumaça que os fracassos inventam, a solidão abaixou a calcinha para que um raio de sol a penetrasse até a exaustão. E então, para não destoar da alegria que regia a orquestra, agarrei-me à batuta com unhas e dentes, e acariciando com os lábios úmidos da imaginação a todas as belas possibilidades que passeavam insinuantes pelos meus pensamentos, dancei sozinho um tango sem música enquanto assinava - como se a obra prima fosse da minha autoria e propriedade - a partitura da Sinfonia em Sol Maior que o dia escrevera sobre a pele da manhã que despertava."


                              © Bruno Kampel, Suécia