Mel

  

 Bruno Kampel






Não sei como acariciar-te as feridas, pois cada vez que delas me aproximo, ardem as minhas.
Ainda adolescente, descobri as diferenças. Enquanto para todos o relógio marcava seis da tarde, para mim o tempo se media com instrumentos mais sensíveis. Não as seis, mas o crepúsculo explodindo, o vermelho sanguinolento tingindo o céu, transformado-o em papel que, sem opor resistência, deixava-se escrever pelas nuvens circulantes que imprimiam juras e promessas em prosa e verso; e as estrelas, que céleres se aproximavam galopando o universo, agradecendo a rima acendiam raios de luz que explodiam na noite que pouco a pouco se instalava.
Crescendo, continuei notando a diferença, não apenas recusando-me a aceitar passivamente o passar dos dias e das noites, mas viajando insone e acompanhadamente solitário as imensas e intermináveis madrugadas, visitando os meus medos, encontrando a mansidão da minha praia, pisando e testando as margens desse imenso mar que somos.
No somar dos anos, descobri o abismo que me separava da dura e crua e circundante realidade, e tendi pontes entre a necessidade de Ser e o imperativo de Sentir. Não foi nem é fácil - foi e é difícil - esse exercício extenuante de transitar a sinuosidade da ambivalência, mantendo ambos rumos -ainda que antagônicos.
Mas foi e é preciso, como condição indispensável para manter o equilíbrio domado e obediente.
E de repente vi-me adulto, refletido no espelho da minha perplexidade. E olhando a imagem que o vidro acristalado devolvia, não gostei da árida paisagem que ele descrevia, e decidi - para não mais ver - fechar os olhos.
Tombos e desencontros invadiram então o meu Presente, jogando-me num canto de mim mesmo, acuado, esperando as consequências, desarmado, indefeso, exposto, frágil. E sofri perdas cujas dores ainda me frequentam. Perdi a capacidade de guiar meus passos - porisso os tombos.
Perdi a habilidade de entender os outro -daí os desencontros. Perdi o interesse pela humanidade que me circundava - porisso a solidão.
Mas ficou, mesmo encolhida, acuada, machucada, uma vontade irresistível de sobreviver. E dela agarrei-me com as últimas unhas que ainda teimavam em crescer na aridez da minha força de vontade.
Usei fórceps para ajudar a nascer à nova vida, que finalmente chegou, tambaleante mas ereta.
Até hoje a uso - ainda que as cicatrizes lhe opaquem o brilho que o viver exige - e vem cumprindo sem desdouro o seu papel, levando-me a entender que minhas dores - que são grandes - são menores que as de muitos; que minha felicidade - que é pequena - é maior que a de tantos.
Só não sei, até hoje, como olhar o relógio e apenas ver as horas, pois não consegui banalizar o discurso do tempo.
A lição melhor aprendida é a de sacudir a cabeça -num gesto quase imperceptível - para afastar os fantasmas cada vez que sorrateiramente se aproximam. Não é fórmula que erradique o mal, mas paliativo para a dor, compressa. É receita costurada na medida exata das minhas carências, sendo seu uso pessoal e intransferível, pois cada um e suas angústias, cada qual e seus remédios. É porisso que não consigo acariciar tuas feridas.
Veja então no meu dizer não a ameaça de um conselho, mas o retrato da lição que a dor deixou-me. Hoje - em mim - o Agir comanda o Pensar, mesmo que isso custe, ainda que isso oprima.
Aprendi não apenas a carregar nos ombros a pesadez dos meus dramas, mas abri espaço para a frugalidade contida na banalidade quotidiana.
Decidi, tentando sobreviver, não mais pensar em tempo integral, mas também dar aos atos espontâneos rédea solta, deixando que os pequenos gestos imponham o ritmo e ditem a última palavra. E assim vou. Ferido, mas bálsamo.
Aprendi a rir da minha dor, e creio que não inventaram melhor arma para ajudar a suportá-la.
É porisso que não posso acariciar tuas feridas. É porisso que não posso. É porisso.
Entenda então o meu silêncio como a intenção de um afago. Veja nele o preâmbulo de um gesto solidário. É o único que posso. É o único. É a única carícia. É a ferida a única carícia que posso.







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